RelationshipsRelações tóxicas e Guerras psicológicas

Nuno Oliveira hipnoterapia

Relações tóxicas e Guerras psicológicas

João decide separar-se de Maria, e ir viver por uns tempos para casa da mãe. A Mãe de João acusa-o de sempre ter sido um irresponsável. E que nem sequer deveria ter ido tão longe na relação. Na realidade, a Mãe de João nunca gostou de Maria. (história fictícia, com início no artigo “A nossa criança Interior”)

Apesar de este caso, lhe parecer muito familiar, e também bastante comum nos nossos dias, em ambientes e dinâmicas sociais, é também extremamente doentio do ponto de vista emocional, psicológico e até físico, causando mal estar, e doenças, entre todos os intervenientes.

Estamos na presença de um Triângulo Dramático de Karpman.

O Triângulo Dramático de Karpman descrito pela primeira vez por Stephen Karpman (Análise Transacional), serve para explicar os papéis representativos, e relações tóxicas que as pessoas geram, num ambiente doentio. Todos os intervenientes padecem aqui, de uma criança interna ferida, e por resgatar, uma vez que todos estes papéis são jogos infantis, que servem para manipular e esconder sentimentos e emoções, a maior parte das vezes inconscientemente.

Triângulo Dramático de Karpman

As setas bidirecionais indicam que os papeis podem ser trocados, e/ou usados em simultâneo. Ao meio existe sempre um problema central, visto que, devido á sua infantilidade, estas pessoas vão ter sempre uma perspetiva da vida, problemática.

O caso de João e Maria

No nosso caso por exemplo: o João estava num papel de Vítima  quando acusou Maria de não lhe estar a dar atenção, Maria sempre foi o Salvador, tentando sempre fugir ao conflito com João e tentando sempre amparar o seu jogo de vítima, quando João regressou a casa da Mãe (o perseguidor), foi ele o acusado.

Dentro deste tipo de triângulos não existem vencedores. Aqui toda a gente perde, e sofre emocionalmente, levando muitas vezes, a problemas de ordem física e psicológica. Este é um exemplo muito simples, no entanto o Triângulo Dramático pode atingir casos multidisciplinarmente complexos como: foro familiar, triângulos amorosos, esquemas organizacionais, e empresas, inclusive sistemas políticos.

O propósito (inconsciente) é representar o script de vida de uma pessoa e manter uma certa “vantagem” psicológica nos relacionamentos. A troca que acontece entre as funções, gera o drama e os sentimentos dolorosos que ocorrem quando as pessoas têm agendas ocultas, segredos, e em seguida, manipular para obter vantagens pessoais disfuncionais.

Quando o Triângulo toma conta da nossa vida

Sem perceber, uma função específica pode se tornar um “hábito de vida confortável” para uma pessoa. Por exemplo, alguém que se vê como um salvador pode ser atraído para se tornar um enfermeiro, médico ou polícia. Uma pessoa pode aprender a sentir-se confortável com os benefícios de ser uma vítima. Um perseguidor pode sentir uma sensação de poder ou segurança no seu papel como chefia, por exemplo.

Consciência do triângulo

Saber que se  está num Triângulo Dramático, é o primeiro passo para sair dele. Os próximos passos são identificar a função que lhe foi atribuída e perguntar a si mesmo num exame de consciência: Esta é uma função “confortável”? Um papel familiar? Estou ciente da minha história pessoal com esta Função? Etc.

Finalmente, que nova ação é necessária? Muitas vezes não somos capazes de ter esta autoconsciência, e fazermos estas perguntas a nos próprios, necessitando mesmo de recorrer a algum tipo de psicoterapia.

A Raiz do Triângulo

Todas estas posturas, têm como base conflitos internos e programações de um mundo infantil bloqueado.

Perseguidor, Vítima e Salvador, são tudo esquemas mal adaptativos e enraizados do mundo infantil, muitas vezes de uma família desestruturada em que a conformidade e a estabilidade são mais importantes do que a felicidade e a liberdade.

As crianças aprendem por símbolos e comandos básicos, as famílias em que existe este tipo de desestruturação obedecem a este tipo de comandos e regras básicos:

  • Finge que está tudo bem
  • Não me aborreças ou não aborreças os outros
  • Dá sempre prioridade aos outros
  • Sê leal
  • Desconfia
  • Não dês a conhecer abertamente os teus sentimentos (melhor ainda se não sentires nada)
  • Não questiones estas regras

Estes comandos básicos tornam se crenças nucleares em criança, que depois se estendem na maneira de ser de um adulto, adulto esse que ficou preso num mundo infantil interno (como vimos no artigo “A nossa Criança Interna”), denotando-se um traço de carácter psicopático – “ou manipulo, ou sou manipulado”,  este adulto infantilizado denota-se com as seguintes posturas:

Postura do Perseguidor: “É tudo culpa tua”

  • Define limites estritos desnecessariamente
  • Culpa, critica e condena
  • Mantém a vítima oprimida
  • É mobilizado pela raiva
  • Possui rigidez, autoridade
  • É arrogante e possui um complexo de superioridade
  • Rejeita a sua própria vergonha e vulnerabilidade
  • Auto atribui-se ao direito de fazer com que os outros atuem conforme os seus desejos

Postura da Vítima: “Pobre de mim”

  • Sente-se vitimizado, oprimido, desamparado, sem esperança, impotente, envergonhado
  • Procura um Salvador que perpetue seus sentimentos negativos
  • Se permanecer na posição de vítima, bloqueará a si mesmo sobre o tomar de decisões, resolver problemas, sentir qualquer prazer e auto compensação
  • Mantém a postura “abatida”, bloqueada, letárgica ou paralisada
  • Vê-se a si mesmo como produto das circunstâncias, sobre as quais não tem controlo nenhum
  • Sente-se incapaz de tomar decisões e cuidar de si próprio
  • Sente-se insignificante, ansioso e infantil
  • Vive as vezes num mundo fantástico e “mágico”
  • Possui um profundo sentido de vergonha, inadequação e um sentimento de inoportuno

Postura do salvador: “Deixa-me ajudar-te”

  • Ajuda quando realmente não quer, e ajuda em detrimento dele próprio
  • Sente-se culpado se não ajudar e responsabiliza-se pela felicidade pela felicidade e pelo bem-estar dos seus congéneres
  • Mantém a vítima dependente
  • Dá permissão para falhar
  • Espera falhar na tentativa de resgate
  • Evita qualquer tipo de conflito, tentando acalmar e apaziguar as outras partes
  • É incapaz de expressar os seus próprios sentimentos e necessidades, até com medo de ferir alguém
  • Sente-se mediatizado pela culpa, pela obrigação e pela responsabilidade
  • Pensa que só é merecedor de carinho se o ganhar com a base de ser bom, amável e servicial

Aceitar ajuda para mudar velhos hábitos

A próxima etapa após ter uma nova consciência, é realizar uma nova ação. Isso pode ser um passo assustador, porque a pessoa está a arriscar deixar a sua “familiar” zona de conforto, e isso traz-lhe ansiedade. É sugerido que as pessoas obtenham apoio consciente de outras que enfrentam o mesmo tipo de desafios, e até mesmo recorrer a algum tipo de psicoterapia para fazer a reeducação e a ressigificação do mundo infantil interno.

Não basta ter apenas consciência de que lugar se está no triângulo, mas sim produzir novas ações, isto porque os conflitos internos continuarão se saltarmos fora do triângulo, apenas vamos encontrar outro triângulo.

“Loucura é, querer resultados diferentes, fazendo tudo exatamente igual!”

Albert Einstein

De qualquer modo estes serão os passos iniciais para sair do triângulo dramático:

Saltar fora do Triângulo

Curar o perseguidor que temos dentro

  •  Autorresponsabilização pelos ataques de cólera
  • Respirar profundamente e acalmar-se antes de falar
  • Acostumar-se a não ter sempre razão e a não controlar
  • Reconhecer as suas próprias carências
  • Valer-se da sua energia feminina
  • Identificar o perseguidor interno com um nome (cria a separação do mesmo)
  • Enfrentar a sua própria vulnerabilidade

O perseguidor precisa sanear a sua cólera, reconhecer as suas carências e a sua própria vergonha e vulnerabilidade.

Curar a vítima que temos dentro

  • Recuperar o seu poder e a sua responsabilidade
  • Aprender a cuidar de si mesmo
  • Ser consciente dos seus pontos fortes, dos seus dons pessoais e adquirir ademais novas aptidões e conhecimento
  • Analisar as crenças e convicções que o prejudicam e que o mantem a assumir o papel de vítima
  • Libertar-se dos traumas do passado
  • Ser um pai (ou uma mãe) carinhosos para a sua criança interna
  • Ter uma visão positiva do futuro

Em poucas palavras as vítimas têm que recuperar o seu próprio poder e aprender a cuidarem-se, a protegerem-se e a sustentarem-se a si mesmas.

Curar o salvador que temos dentro

  • Assumir a responsabilidade da própria vida
  • Abandonar a prática de procurar aprovação, saindo do seu próprio caminho pelos outros
  • Aprender a dizer não e a fixar limites claros
  • Manter-se apenas em assuntos que são da sua própria incumbência
  • Deixar de proteger e de apoiar em demasia os outros
  • Ser sincero e autêntico, expressando a sua verdade
  • Acostumar-se a manobrar as controvérsias e a mostrar a sua desaprovação de maneira saudável e construtiva
  • Desprender-se da carga a que se auto supõe pela responsabilização dos outros e divertir-se mais com a vida
  • Procurar ser feliz, em vez de tentar ser bonzinho e perfeitinho

Os salvadores têm de cuidar de si mesmos antes do seu próximo e ademais deixar a sua ânsia compulsiva de ajudar e amparar.

Para tomarmos as rédeas da nossa vida necessitamos de consciência, uma pitada de coragem e avançar. Sabendo que a liberdade é muito mais leve e prazerosa.

Mudança = Consciência + Novas ações

Have a question?

    Subscreva com o seu email e adquira novas dicas, informação sobre novos cursos e descontos em terapias.